Origem trentina é revelada no dialeto

Ele já foi motivo de vergonha e até de prisão. Embora ameaçado, resiste através do tempo  e da influência da globalização. Fala-se do dialeto trentino, ainda muito difundido entre os moradores do município de Nova Trento, principalmente os mais idosos. A linguagem, diferente em muitos aspectos do italiano gramatical, é uma das maiores riquezas culturais da cidade. Podemos nos questionar, portanto, por que essa maneira particular de falar foi um motivo de prisão em alguns casos. Bem, há muitos fatos que envolvem a história do dialeto trentino na cidade, começando ainda na Europa.

Quando os imigrantes começaram a partir rumo à América, a Itália que conhecemos hoje ainda não existia. O Trentino, por exemplo, pertencia ao Império Austríaco e só foi anexado ao país italiano em 1919, exatamente quanto a Itália unificou-se completamente solidificando-se como um Estado Nacional.

Neste momento, a língua precisava ser única, um fator de identidade. O neotrentino e professor de História, Jovani Tamanini, trabalhou com o tema em sua monografia de conclusão de curso. “O dialeto falado em Florença foi escolhido para ser a língua oficial dando origem ao italiano gramatical que conhecemos hoje. Para muitos, a imposição de uma nova língua significou uma agressão, já que manter o dialeto era manter também a própria identidade cultural”, explica o historiador.

Os imigrantes trentinos que chegaram em massa a Nova Trento a partir de 1875 conheciam somente o dialeto Trentino (a maioria o roveretano e o valsuganoto). De certa forma, eles também tiveram de lutar para manter suas tradições. Muitos imigrantes e seus descendentes começaram a sentir os reflexos do processo de nacionalização do Brasil, iniciado por Getúlio Vargas na década de 30. O português tornava-se obrigatório. Principalmente durante a 2ª Guerra Mundial, havia controle policial nas colônias europeias para o uso do português. Temia-se a formação de grupos de espionagem, já que a Europa fervilhava numa guerra sem precedentes.

Imigrantes em reunião para o jogo da boccia. Dialeto era a única língua falada na cidade até meados do século passado.

Imigrantes em reunião para o jogo da boccia. Dialeto era a única língua falada na cidade até meados do século passado.

 

Dialeto sobrevive: até quando?

Há cerca de 27 anos, Ivette Marli Boso deixou sua terra natal – Nova Trento – para morar na região do Trentino, na Itália. Formada em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, ela seguiu seus estudos na Universidade de Trento, concluindo mais uma graduação em lingüística.

A intensidade de suas pesquisas deu vida à obra intitulada “Noialtri qui parlen tuti in talian” (Nós aqui falamos todos em ‘talian’). O livro traça um intenso estudo sobre a permanência e mobilidade dos dialetos trentinos – valsuganoto e roveretano – na cidade de Nova Trento. A pesquisa analisou o uso de palavras dialetais no português e a conservação de outras palavras do dialeto que eram usadas em regiões do Trentino, ainda no século 18.

Ivete também observa na sua pesquisa o nível de permanência do uso do dialeto nas famílias neotrentinas. No centro urbano, a perda da competência na utilização do dialeto chega a ser mais de 70% entre os avós e seus netos, ou seja, a cada geração, o uso de uma outra língua – nesse caso o dialeto trentino – vem perdendo espaço.

Entretanto, assinala a autora, em localidades como Baixo Salto e Vigolo, a presença do uso do dialeto é mais forte. A perda de competência recai para 10%. “Nos bairros, é possível encontrar um maior número de crianças que usam o dialeto com amigos e familiares”, diz Ivette.

Para a pesquisadora, um dos principais fatores que influenciou a desconsideração do dialeto foi a intensa campanha de nacionalização imposta por Getúlio Vargas a partir de 1930. Com a proibição do uso de outra língua senão a portuguesa, utilizar o dialeto passou a ser motivo de perseguição, e prisões. Afinal, para o governo getulista, o Brasil precisava se reafirmar como estado-nação. Uma língua única era fator essencial para a afirmação de uma identidade nacional.

Assim, o uso do dialeto passou a ser motivo de ‘vergonha’ para os neotrentinos, fator que acabou influenciando a descontinuidade do uso da língua na cidade. Com a retomada da valorização da cultura de origem nas últimas décadas, principalmente com a criação do Circolo Trentino, a comunidade de Nova Trento passa a lançar um novo olhar sobre a questão. “O principal objetivo de minha obra é propor uma reflexão sobre o tema, fazendo um apelo para que a comunidade neotrentina retorne a utilizar o dialeto em suas famílias, pois ele representa um importante legado cultural”, destaca a pesquisadora.

Expressões do dialeto trentino

Um pesquisador italiano reuniu num livro uma série de expressões dialetais trentinas. Elencamos algumas delas abaixo, exatamente por ainda serem usadas em Nova Trento, passados 136 anos da chegada dos imigrantes. São elas:

Barèa: expressão de desgosto, náusea, nojo

Bèl: belo

Cagnàra: objetos ou fatos sem importância (“Frottola”)

Cagambràghe: pessoa que tem medo de tudo

Càora: indica uma moça fácil (l’è na càora)

Ciavàda: cair numa cilada

Ciuchetèr: bêbado habitual

Despetolàrse: desgrudar, cair fora

Ensemenì: pessoa imbecil, vagarosa

Furbo: indica uma pessoa dotada de grande inteligência

Gnàpa: Boca grande, indica pessoa que fala demais

Mùl: pessoa que está de mau humor, indica também as crianças que ficam bravas e adquirem uma expressão séria

Pètola: pessoa que vive pegando no pé

Pisòt: ‘estupidinho’, usa-se para jovens de ambos os sexos que querem aparecer com certa precocidade em relações com outras pessoas do mesmo sexo

Pìtima: pessoa que causa tédio

Sfrugnàr: apalpar; aquele que coloca as mãos em tudo

Snasàr: indica a pessoa que coloca o ‘nariz em tudo’

Stomegàr: desgostar, enjoar