O mundo deixado pelos imigrantes em busca de uma ‘Nova Trento’

A maioria dos imigrantes que fundou Nova Trento veio da região da atual Província Autônoma de Trento, norte da Itália, que na época da grande emigração era conhecida como o Tirol Italiano, área sob domínio do Império Austro-Húngaro. Qual foi o fato que fez os emigrantes trentinos acreditarem que uma vida melhor encontrava-se longe? O sociólogo italiano Renzo Maria Grosseli, no livro Vencer ou Morrer, resume a resposta a uma única frase: “O expandir-se do sistema capitalista em toda a Europa, entre 1850 e 1870”. O surgimento das novas tecnologias atingiu em cheio o Trentino, que não era uma região industrializada. A economia era autossuficiente, ou seja, o camponês estava habituado ou obrigado a cultivar o que era necessário ao sustento da família. Território de montanha e rochoso somado a invernos rigorosos assolavam ainda mais os camponeses.

A falta de um governo nacional que tomasse medidas políticas adequadas, barreiras alfandegárias, junto com impostos e taxas sobre as produções rurais, pioravam a situação. Devido a uma exploração rudimentar do solo, as terras ficaram esgotadas e as colheitas não rendiam o suficiente para saciar a fome dos camponeses. O capitalismo se arrastava trazendo, através das ferrovias, mercadorias que faziam concorrência com aquelas produzidas nos pobres terrenos do Trentino. O único setor realmente significativo era o da seda. Porém, as folhas de amoreira que serviam de alimento para o chamado bicho-da-seda, foram atingidas por uma doença chamada pebrina, enfraquecendo a produção.

O mesmo problema acontecia com as videiras. Qualquer praga que atacasse o cultivo deixava todos numa situação crítica.

Ao encontro da verdadeira liberdade

A população do Trentino acreditava que a verdadeira liberdade encontrava-se na América. “Libertè, égalitè, fraternite, vocês a cavalo e nós a pé”, parodiavam os camponeses as palavras da Revolução Francesa. Os discursos da época eram encarados como ideologias “dos ricos”. A unificação italiana e as revoluções liberais não ecoavam no ouvido dos camponeses. A preocupação maior era com a situação no campo, pois era do campo que dependia a sobrevivência.

A população do Trentino estava à frente de dois caminhos. Um era aceitar a urbanização e a conseqüente transformação em força de trabalho, e outro a modernização da própria atividade. A última opção era praticamente impossível para a maioria. A primeira, era submeter-se aos patrões, algo terrível para os trentinos, já que enxergavam nos nobres a razão da própria desgraça. A solução era emigrar.

Imagem retrata o Trentino deixado pelos imigrantes: pouca terra plana para o cultivo numa comunidade cercada pelas montanhas. Crédito: Província Autônoma de Trento

Imagem retrata o Trentino deixado pelos imigrantes: pouca terra plana para o cultivo numa comunidade cercada pelas montanhas. Crédito: Província Autônoma de Trento

 

Fonte: Livro “I Figli della Terra”, de Alberto Folgheraiter.