
Ao longo de 45 anos – de 1927 a 1972 – a Fábrica de Tecidos Neotrentina Ltda. empregou boa parte da população adulta de Nova Trento em sua unidade fabril situada no bairro Cascata. Uma parte física está preservada. É a que abriga a Pousada Portal do Vigolo. Porém, em um tempo maior – 48 anos, desde que fechou até meses atrás – todo o resto de sua rica história ficou confinada a uma sala da Fábrica de Tecidos Renaux, em Brusque, e se não fosse o interesse do professor neotrentino Juliano Mazzola e do historiador Saulo Adami, de origens neotrentinas e residente Curitiba, tudo teria virado cinza.
É que as antigas instalações da Renaux, em Brusque, foram adquiridas pelo empresário Luciano Hang, da rede de lojas Havan, e como não havia interessados em ficar com o acervo, tudo seria queimado. Com sorte e persistência, o material que está sendo resgatado deve resultar, em futuro próximo, em um livro e um documentário.

Juliano Mazzola, que tem sincera paixão pela preservação dos patrimônios históricos e culturais, há tempos buscava a história da fábrica. E tudo ganhou contornos reais no final do ano passado quando foi procurado por Saulo Adami que buscava a história de sua família que, em terras catarinenses, começa em Nova Trento.
Foi então que Juliano, sabendo que Adami morou em Brusque por muitos anos, pediu contatos da antiga Renaux que o levasse até onde estivessem (nem se sabia que existiam) possíveis documentos da antiga unidade de Nova Trento. Para sua felicidade, em poucos dias, o último administrador da Renaux, Rolf Buckmann e sua esposa, Cristina, emocionados por saber de tanto interesse, entregaram aos dois amigos as chaves do arquivo para que buscassem tudo que quisessem.
O que encontraram até agora, entre milhares de documentos, tem uma característica: a qualidade da preservação, descontado, evidentemente, o efeito do tempo sobre os papéis, que os deixou amarelados.
Verdadeiras joias entre os achados
Nas seguidas visitas ao arquivo, na Rua 1º de Maio, os achados dos dois amigos são consideradas verdadeiras joias, como a certidão de nascimento da fábrica de Nova Trento, com a relação, nome por nome, dos 86 primeiros acionistas, local de residência, número de cotas e quanto cada um contribuiu em dinheiro para o capital inicial do empreendimento, festivamente comemorado por representar uma oportunidade de emprego, algo raro na época.

O primeiro da lista é a Fábrica de Tecidos Renaux S/A, vindo em seguida o investidor brusquense João Bauer. O terceiro, quarto e quinto maiores acionistas foram os neotrentinos José Battisti Archer, Carlos Tridapalli e Hypólito Boiteux.
Outras três preciosidades encontradas: o livro de atas, onde estão registradas as transferências de cotas; as listas de promoção por produção dos “operários” e os respectivos valores, e correspondências assinadas pelo diretor da fábrica em Nova Trento, Paulo Hartke à direção superior, em Brusque, pedindo apoio financeiro – feito ano a ano, de 1927 a 1972 – para manutenção do Hospital Imaculada Conceição, como também para a Paróquia São Virgílio e capelas.
Quanto a essa correspondência, Juliano Mazzola faz uma observação importante: ela corrige para a história uma inverdade, beirando injustiça e calúnia, que se falava comumente naqueles anos, ou seja, que “os Renaux”, como eram chamados, não gostavam dos padres jesuítas de Nova Trento e por isso não ajudavam causas católicas, porque eles, empresários, “eram alemães e luteranos”. Ajudavam, sim, e muito, mas preferiam total discrição.
O que virá – Juliano Mazzola estima que precisará de pelo menos mais um ano para vasculhar todo o imenso arquivo e assim ter certeza de que nada de importante fique desprezado. Toda a história da fábrica e outros fatos inéditos acontecidos em Nova Trento e relacionados a ela, vai resultar em um livro escrito pelos dois amigos, para o qual já há uma editora interessada, a Estrada de Papel, de Curitiba.
Tão importante quanto o livro é a já concreta possibilidade de a história se transformar em um documentário. Para isso, Juliano e Saulo estão buscando fontes de financiamento junto a órgãos oficiais. A produtora Griô Filmes, de Brusque, se candidatou para fazer o filme.





